Na 23ª Tertúlia “Porto Tónico” da Fundação da Juventude sob o tema “Os Novos Realizadores”, realizada no Palácio das Artes – Fábrica de Talentos, no Porto, a 17 de Dezembro, foram abordadas as seguintes áreas de Intervenção: Cinema e os seus Intervenientes, Espaços, Novas Oportunidades, Novos Mercados e Público. Nesta tertúlia foram convidados os oradores principais, Beatriz Pacheco Pereira, Fundadora e Directora do Fantasporto- Festival Internacional de Cinema do Porto; Isolino de Sousa, Coordenador do Curso de Cinema e Audiovisual da ESAP e Joana Miranda, Representante da Comissão Executiva da UFRAME – Festival Internacional de Vídeo.
Beatriz Pacheco Pereira referiu que actualmente o Cinema em Portugal esta a dar passos com mais rigor e perfeição mas em contrapartida há menos apoios e promoção internacional sendo a situação particularmente grave sobretudo no Norte do País. Portugal não é um país fácil e tudo é politizado havendo assim mais limitações e infelizmente ninguém ganha dinheiro com curtas-metragens. Há um mercado de trabalho muito circunstancial, sobretudo na publicidade, onde se verifica mais facilidade. No Cinema ainda existe grande dificuldade de financiamento, assim como de promoção, o que levanta a um mau acesso do espectador à produção nacional e internacional.
Na sua opinião, acredita que a educação é a base de tudo e crítica o Ensino Público referindo que infelizmente se verifica uma degradação. Muitos professores de audiovisual não sustentam uma formação completa. Para quem quer seguir realização outra carreira dentro do audiovisual, é essencial saber História do Cinema e muitas das vezes ela não é tão focada quanto deveria. Essencial também uma actualização técnica e teórica constante, assim como conhecimento das redes que podem ajudar. Julga que 3 anos de licenciatura não é suficiente e que encontra muitos licenciados que não sabem sequer escrever português correctamente. Tem que existir um grande esforço pessoal, maior rigor e melhor equipamento.
Presentemente são poucas as pessoas que vêem filmes antigos, da sétima arte (anos 30/40) e muitas das vezes porque não há acesso aos mesmos. Por outro lado há facilidade de acesso nos downloads onde se procuram sobretudo as novidades.
O Professor Isolino de Sousa, apesar de concordar com a Dra. Beatriz, tem uma visão mais positivista e considera que com altos e baixos, as escolas mostram um ensino suficiente nas áreas técnicas e já só por ai tem-se melhorado ao longo dos anos, dando a ESAP como exemplo, ainda que não de forma perfeita mas que vão formando pessoas capazes. Considera que o único entrave para estes “novos realizadores” é os poucos acessos e dinheiro. A grande maioria que vai surgindo no mercado vai fazendo curtas-metragens para Festivais mas, ainda assim, o “circuito” de Festivais não dão rendimentos para os realizadores se desenvolverem na área. O passatempo realizado pela RTP (através do acordo RTP – Ministério da Cultura e de investimentos directos) surgiu em conversa como uma forma de exemplo num projecto desenvolvido para dar meios, dinheiro e possibilidade a essas curtas-metragens de passarem na televisão. No entanto, existe em Portugal muita pouca capacidade/possibilidade pois não há a existência de mercado.
Joana Miranda, representante da Comissão Executiva da UFRAME e colaboradora do Mestrado em Realização Audiovisual do Instituto Politécnico do Porto, em conjunto com outras Universidades Estrangeiras como a Coruña e São Paulo, entre outras vão explorando estas áreas. Inclusive, foi lançado um desafio pela Universidade da Coruña, um Festival que tem como objectivo principal a intercomunicação entre os estudantes, ou seja, consiste na apresentação e comparação dos trabalhos por eles realizados, procurando-se assim outras formas de financiamento. É necessário promover a entrada dos estudantes no mercado de trabalho e evitar que fiquem presos a algumas monotonias, promovendo o espaço para participarem juntamente com os profissionais e ganharem ferramentas para esse trabalho.
Em Lisboa, relativamente ao ensino, há uma boa programação e há outro tipo de leituras/visualização de filmes em boas salas e onde se encontram grande obras. Como experiência na docência, Joana Miranda, acredita que é necessária a existência de financiamento, marketing e networking sendo fundamental que ocorra antes e depois da formação. No Porto a entrada no mercado de trabalho é limitada e não há realização sem produtor. Os Festivais são uma boa possibilidade e podem dar representação aos realizadores e lança-los para o mercado de trabalho. Dando assim maior visibilidade.
Para Beatriz Pacheco Pereira o cinema em Portugal é uma ficção, uma ilusão e afirma que se fazem filmes sem qualidade, sem adereços, sem actores profissionais, o que mata frequentemente a ligação com o público. O mercado foi dinamizado pela Televisão, uma parte mas não o todo.
Demonstrou revolta nas decisões tomadas pelo ICA – Instituto do Cinema e do Audiovisual – uma vez que considera as mesmas manipuladas e que tudo se cinge a politicas obscuras. Mencionou que o Ministério da Cultura só tem 0,4% do Orçamento e uma parte deste dinheiro é para financiar o Cinema em Portugal. Há filmes que são exibidos em sala por períodos reduzidíssimos, outros nem isso, e é em Lisboa que se decide tudo. Na sua opinião, o sistema de júris devia funcionar como na Dinamarca, onde se relançou a indústria cinematográfica, ou seja, ser tudo decidido por personalidades independentes de técnicos de imagem e argumentistas. A concorrência é enorme e ser realizador é difícil e dá muito trabalho, principalmente quando há vários lobbies que dominam, havendo assim mais limitações. É necessária muita paixão e determinação para se vencer nesta área. Considera ainda o cinema como a arte mais completa uma vez que engloba o campo visual, literário e auditivo. Beatriz Pacheco Pereira mencionou ainda que a tecnologia está a ajudar, sendo que qualquer pessoa pode fazer o seu filme com rapidez e baixo custo. É ainda importante que Portugal aposte no Cinema também como promoção turística. Exemplo disso são cidades como Cannes ou Karlovy-Vary que são conhecidas por terem bons festivais de cinema. A função dos festivais é, cada vez mais, dar visibilidade a filmes que dificilmente entram no circuito comercial. O Fantasporto é considerado como um dos melhores Festivais do Mundo pela Variety (maior publicação de cinema do Mundo).
Para a maioria dos intervenientes da Tertúlia pensam e acreditam que a educação tem evoluído e que há mais projectos e programas a decorrer. A maioria dos espectadores vão ao cinema para ver os filmes tipicamente americanos em que o importante é ter uma imagem apelativa e bom som uma vez que são considerados de boa qualidade e isso é essencial para uma maior comercialização. Actualmente as expectativas dos novos realizadores, não é tanto seguirem carreira na realização uma vez que há falta de dinheiro, não há competição e o cinema português não tem acompanhado aquilo que as massas pretendem. O cinema de autor, com narrativas tem perdido o seu valor e cineastas/produtores como Fernando Meirelles, cativam o público retomando assuntos sociais mas também com a boa qualidade de realização. O cinema de qualidade é o que mais dá lucro embora se possa conciliar o cinema de autor versus cinema de qualidade. O entretenimento é fundamental para atrair e “prender” o público e para tal, deve-se saber seleccionar aquilo que o público quer ver e ir de acordo com aquilo que elas mais procuram pois a maioria das pessoas vão ao cinema para relaxar, divertir-se, principalmente depois de um da de trabalho. Há que haver diversificação do conteúdo dos filmes de cinema. Não podemos obrigar o público a gostar de algo que não gostam mas podemos incentiva-las a gostar, apostando no marketing. Tem que se apostar em coisas de melhor e maior dimensão e infelizmente não há mercado para os filmes portugueses. Temos que ter filmes de qualidade média para nos promovermos no estrangeiro.